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domingo, 1 de novembro de 2009

DOCTV - Desenho do Corpo



“Toda beleza do mundo é reflexo de uma beleza fonte.”

A questão da estética do corpo é algo que se discute desde a Grécia antiga, os padrões de beleza e culto ao corpo que definem um paradigma são construídos e mutados ao longo de décadas sob influencias culturais, artísticas e filosóficas, que são absorvidos pela sociedade e massificados por estereótipos que definem o que é belo e aceitável como padrão estético.

Na sociedade contemporânea o mercado capitalista se apropria desses modelos pré-concebidos e impõe a necessidade de atendermos rigorosamente o apelo dos padrões estéticos vigentes.

Com esse rigor estético o corpo feminino é o que mais sofre para manter esse paradigma que é refletido nas artes plásticas, no cinema, na moda, nas ruas e na concepção de beleza da sociedade.

Esse é o tema que “Desenho do Corpo” se propõe a discutir a partir de personagens que ganham a vida como modelos vivos, bailarinas e teóricos da arte, revelando a construção do ideal de beleza do corpo feminino na contemporaneidade, tendo como referência os costumes relacionados ao consumismo.

O filme lança mão de uma proposta de documentário clássico com depoimentos posados e imagens que ilustram as falas e desenvolvem o ritmo do filme.

A fotografia, a dança e as artes plásticas são o pano de fundo pra discutir a construção da imagem perfeita do corpo feminino por serem os principais disseminadores e perpetuadores desse ideal de corpo jovem e agressivamente definido.

Por outro lado, a modelo vivo Vera, uma senhora de sessenta e sete anos, que posa para fotógrafos e estudantes de arte desde a juventude é o contraponto do filme por não corresponder mais aos apelos estéticos vigentes, mas que abre uma grande reflexão sobre a verdadeira concepção de beleza, um corpo castigado pelo tempo não mais corresponde ao paradigma de beleza, porém, a beleza não está no corpo e sim na relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto, por isso quando olhamos um desenho desse mesmo corpo podemos dizer que é belo, pela integridade e perfeição.

“Desenho do corpo” faz parte da carteira especial DOCTV SP III , Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro realizado através da articulação da Fundação Padre Anchieta – TV Cultura junto ao SESCTV e à Secretaria de Estado da Cultura, com o apoio institucional da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas – ABD/SP.

Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Cristiane Arenas
Co-produção: Cristiane Arenas | Contraponto Produções | Fundação Padre Anchieta – TV Cultura

DOCTV - Engarrafados



Engarrafados é um documentário que revela as relações estabelecidas entre pessoas desconhecidas que trafegam por diferentes pontos da cidade de São Paulo, abordo de um taxi, desvelando paisagens abstratas e obscurecidas pelo cotidiano, fazendo emergir a personalidade de cada personagem que passa pelo taxi.

A partir de um taxi, metáfora simbólica que circula dia e noite pelas ruas da metrópole, seis distintos personagens ocupam o veiculo e trocam palavras com o motorista em regiões diversas sob as intempéries do tempo e o caos urbano, esse papo informal e fragmentado, aos poucos vai revelando a personalidade de cada um dos passageiros e conduzindo o espectador a vivenciar essa viagem.

Para cada personagem que é apresentado há uma nova proposta audiovisual buscando relacionar as diferentes regiões por onde o taxi circula e reforçando as diferenças de personalidades das personagens.

Construído de maneira experimental com paisagens abstratas em movimento, mas que são facilmente reconhecidas e interligadas as falas das personagens, o documentário se desenvolve pelas relações estabelecidas entre passageiro e motorista, pessoas desconhecidas que ocupam o mesmo espaço e trocam vivências em meio a uma metrópole onde a individualidade é o cartão de visita.

Por mais que o filme se passe inteiramente dentro de um veiculo trafegando pelo caos urbano, o fio condutor está nas relações estabelecidas informalmente entre os personagens que partem de suas singularidades para a universalidade das relações humanas.

Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Luiza Fagá
Co-produção: Luiza Fagá | Tapiri Cinematográfica | Fundação Padre Anchieta – TV Cultura

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DOCTV: Roraimeira, uma expressão amazônica


As belezas naturais de Roraima são, sem dúvida, o seu maior patrimônio, e inspirada nessas belezas locais e na cultura indígena, surge na década de oitenta o movimento musico-cultural que passou a ser conhecido como “Roraimeira”, esse movimento buscava exaltar toda a cultura regional roraimense, instituindo um manifesto pro-regionalista de preservação e super valoração dessa cultura regionalizada que passou a influenciar também outras formas de expressão artística como a literatura, dança, teatro, fotografia e artes plásticas.

O documentário homônimo de Thiago Briglia, parte da ideia de um resgate desse movimento seguindo os passos do trio que deu origem ao movimento. Eliakin Rufino, Neuber Uchôa, Zeca Preto, são os personagens que ao longo do documentário visitam localidades turísticas que compõe o cenário natural de Roraima e que serviram de inspiração para o movimento artístico regional como a famosa Pedra pintada, o lago Caracaranã e o Monte Roraima.

Mantendo a ideia original e valorizando a fauna amazônica, o documentário cria um clima de interação e pertencimento com a expressividade naturalística da zoodança encenada por artistas locais e que cria um universo estético-selvagem corroborando com a regionalidade, essa dança reconstrói os movimentos de animais da fauna local como a onça pintada, a garça, e o macaco com uma plasticidade que valoriza toda a proposta estética do documentário.

Tendo como personagens três grandes músicos, o documentário cria a atmosfera de um musical, pontuando as regionalidades turísticas com músicas da roraimeira e com depoimentos que demonstram a inspiração para as composições musicais de cada localidade.

Com isso o diretor busca criar um reflexão para a influência deixada pelo movimento roraimeira para a formação cultural e identitária roraimense, mostrando que mesmo que isso não esteja explicito, houve um movimento regional que contribuiu não só para a formação da identidade cultural roraimense, mas também contribuiu para a aquisição de uma da auto estima local que se sente privilegiada de ter em suas terras frutos da valorização e resistência cultural.

Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autor e Diretor: Thiago Briglia
Co-produção: Thiago Chaves Briglia | Promídia | UNIVIRR - Universidade Virtual de Roraima | ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas e Educativas

DOCTV: Filhos do Jaú


O saber popular está perdendo a sua credibilidade e seu valor, pesquisas científicas são sempre reconhecidas e o mérito de suas realizações fica apenas com o pesquisador que foi a campo buscar na fonte uma resposta para sua pesquisa deixando seus auxiliares e não menos importantes, na sombra da ciência.

Com o objetivo de equiparar a importância do saber popular e do saber cientifico de pesquisadores e guias da população ribeirinha do vale do jaú na região amazônica, o documentário “Filhos do Jaú” dirigido por Eliana Andrada, revela toda a cumplicidade necessária entre pesquisadores e filhos da terra para a realização e eficácia de uma pesquisa que beneficia a todos, mas que apenas valoriza o cientista.

O documentário acompanha uma equipe de pesquisadores, biólogos e botânicos que visam encontrar em suas pesquisas uma maneira de preservar a biodiversidade local e que dependem da eficiência e conhecimento dos guias para levarem a cabo suas intenções.

Ao longo do documentário tomamos conhecimento de toda necessidade de um bom “Mateiro” e seu conhecimento aprofundado sobre a floresta para guiar a equipe de pesquisadores em suas pesquisas de campo pela floresta amazônica num ambiente hostil e de difícil sobrevivência sem o acompanhamento desses guias.

A riqueza e exuberância das imagens do Parque Nacional do Jaú conferem ao filme uma beleza natural e simples como o por do sol espelhado nas águas do rio ou mesmo as crianças que brincam e mergulham na beira do rio.

A simplicidade cotidiana da vida ribeirinha revela o acordo com a natureza em extrair de maneira consciente apenas aquilo que lhe é necessário para sua sobrevivência valorizando os costumes e tradições sustentáveis que são passadas ao longo dos anos de pais para filhos e que com a valorização do trabalho do “Mateiro” traria também uma auto estima que manteria essa tradição para que no futuro esses anônimos possam também serem reconhecidos como colaboradores dessas pesquisas da qual sem suas participações, não existiriam.

Construído de forma convencional com depoimentos dos pesquisadores e guias o documentário não supervaloriza o trabalho desses conhecedores da floresta e sim busca revelar a importância coletiva de um trabalho de pesquisa que não se realiza apenas com o saber científico do pesquisador chefe, e sim com o trabalho de uma grande equipe com suas devidas funções equiparadas.

Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Eliana Andrade
Co-produção: Eliana dos Santos Andrade | Amazon Picture | TV Cultura do Amazonas | ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

DOCTV: Álbum de Família


Por: João Daniel Donadeli
Álbum de família é um documentário que visa resgatar os laços perdidos pela desestrutura familiar causada pela infidelidade e falta de compromisso da figura paternalista que “regia” a família do diretor.
Após a morte traumática de sua mãe por um câncer de mama contraído depois de uma separação frustrante, que teve inicio com as constantes traições do marido que simultaneamente convivia com três famílias, o diretor Wallace Nogueira, busca um reencontro com o pai, para reaver metaforicamente o álbum de família deixado em uma antiga fazenda onde a família costumava se reunir.
Esse encontro se dá na empreitada de uma viagem longínqua pelas estradas da chapada diamantina no interior da Bahia em direção a Fazenda, estrada que refaz as memórias de outrora e que liga Wallace a seu pai, um trajeto que visa não só a troca de experiências, sentimentos e memórias de convívio, mas também confidências que fazem aflorar um sentimento de culpa.
Um momento muito marcante desse documentário são as imagens captadas por Wallace no enterro de sua mãe, essas imagens são potencializadas pelo questionamento do pai pelo filho em off, onde se ouve o pai dizer que o câncer foi contraído pelo desgosto da mãe por sua má conduta e pela separação.
A proposta utilizada pelo diretor para revelar essa reaproximação com seu pai, são planos montados e encenados pelos dois sem que nenhum fale diretamente para a câmera ou para qualquer outro interlocutor, como se o espectador fosse um observador privilegiado desse diálogo cheio de emoção e revelações.
A partir de situações corriqueiras da vida de seu pai, como deixar de comprar um queijo para levar um filme fotográfico, Wallace busca demonstrar a importância que tem para a família, o registro fotográfico de um álbum familiar, porém contraditoriamente expõe a sua opinião com relação ao modelo familiar vigente que diz não acreditar.
Com o pretexto de reaver o álbum de família na verdade Wallace busca uma resposta para sua inquietude, desvelando sua intenção de suscitar a catarse e purgar toda a frustração que a morte de sua mãe lhe causou.
Por fim Álbum de família é um documentário que demonstra a ruína de uma família quando os interesses pessoais estão além dos interesses coletivos.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autor e Diretor: Wallace Nogueira
Co-produção: Wallace Nogueira Santos Silva Vogal Imagem IRDEB - TVE Bahia ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais

DOCTV: O Rei do Carimã

Por: João Daniel Donadeli

O documentário “O Rei do Carimã” busca resgatar um acontecimento obscurecido por anos pela família da diretora Tata Amaral e que no dia do enterro de sua mãe vem à tona por um comentário de um de seus tios, esse acontecimento diz respeito ao já falecido pai da diretora, que na década de 1950 negociava resíduos de algodão conhecido como Carimã.

O comentário feito pelo tio revelava que no passado seu pai havia sido um homem bem sucedido e que por um negócio mal sucedido com uma empresa americana na aquisição de uma grande quantidade de Carimã teria sido processado por ter feito o pagamento com um cheque sem fundos e fugido para o mato grosso para não ser preso.

Esse fato motiva a diretora a empreitar uma busca para desvendar esse segredo guardado por anos por sua família e consequentemente a realização desse documentário.

Em conversas informais com seus tios, o segredo vai sendo desvendado e causando uma inquietação maior na diretora, em um primeiro momento somos apresentados a Joaquim Amaral (Pai) um jovem bem quisto e admirado pela família e que aspirava sua predileção empreendedora, mas logo após tomamos conhecimento de novos fatos e o documentário tem um novo foco, não mais um segredo de família e sim um inquérito policial.

Alternadamente, enquanto as imagens revelam a busca de um pai desconhecido, na ilha de edição Jean Claude Bernardet, põem a diretora no divã questionando-a quanto a sua motivação em fazer o documentário colocando assim o filme num plano metalingüístico e expondo a sua construção.

O Rei do Carimã expõe intensamente a diretora que torna público um segredo escondido por anos em família, mas a maior exposição de Tata é quando recebe a noticia da condenação de seu pai por estelionato, sua lagrimas correm pelo rosto enquanto uma voz off, possivelmente de sua filha diz: “não acho que isso deva aparecer no documentário”.
Com o processo resgatado em mãos sabemos que seu pai havia de varias formas tentado fazer o acerto de contas, porém a inflexibilidade da empresa americana impossibilitava qualquer negociação levando o processo até as últimas.

O mais intrigante nesse documentário não é a questão de uma diretora renomada expor sua intimidade familiar em um documentário mesmo que fosse para limpar publicamente o nome de seu pai, e sim a questão que surge sobre a convivência da filha com o pai que não lembra nem mesmo se teria participado de seu enterro, e até a realização desse documentário não havia nem mesmo visitado sua sepultura, aparentemente a maior motivação para a realização desse filme é a aproximação da filha com o pai que não conheceu.

Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Tata Amaral
Co-produção: Tata Amaral Tangerina Entretenimento Fundação Padre Anchieta – TV Cultura


DOCTV: O Sol Sangra


Por: João Daniel Donadeli
A Estrada de ferro Carajás, que interliga as cidades de Parauapeba-PA a São Luís-MA é sem dúvida um agente causador de reminiscências. Homens que vão em busca de sonhos e Homens que voltam para matar a saudade, um conglomerado de sentimentos que transcendem o plano real e trafegam entre o espaço e o tempo, pelo sim e pelo não.
Toda a ansiedade e nervosismo que antecedem uma viagem se dissolve à medida que partimos e não mais somos detentores do tempo, dali pra frente estamos sujeitos a outra temporalidade a outra maneira de perceber o tempo o que nos faz regressar e consultar nossas memórias, mas também visitar a louca da casa e nos deixar levar pela imaginação. Imaginação que nos conduzem a nossa subjetividade na construção de um universo imagético e atemporal.
Essa é a proposta do documentário “O sol Sangra” de Val Barros, que busca por meio da metáfora do trem mostrar as subjetividades e memórias não só daqueles que trafegam na Estrada de ferro Carajás como suas próprias memórias.
O sol sangra é construído com imagens do trem em movimento sempre do ponto de vista de quem viaja, ou seja, a paisagem em movimento. Essas imagens são alternadas com imagens encenadas por pessoas simples e com muita naturalidade sugerindo suas próprias memórias.
Com toda a sutileza e ponderação Val, também é um personagem de seu próprio filme apresentando suas memórias e refletindo sua imagem nas passagens do trem, uma das cenas mais lindas do filme é a do garoto que observa seu pai partir à cavalo e voltar para buscá-lo, lembrança de infância da diretora.
Planos com movimentos lentos e detalhados dirigem o olhar do espectador e geram expectativas conduzindo a narrativa de maneira ativa fazendo com que os cinqüenta e dois minutos do filme pareçam quinze.
O mais surpreendente nesse filme são as fotos que choram, fotos que revelam Val, e seus irmãos diante de um pequenino caixão com o irmão falecido, essas cenas são de uma genialidade que somente uma mulher com toda a sua sensibilidade estética poderia nos proporcionar, a continuidade desse plano são crianças no trem além de uma mãe alimentando seu filho como se aquela imagem fúnebre e triste desse lugar a um renascimento com a mãe amamentando uma nova vida.
O sol sangra é um documentário silencioso e contemplativo onde os únicos ruídos que se ouve são aqueles que pertencem a própria cena sem trilha sonora ou depoimentos em of, mas no entanto é um filme que fala muito e que encanta por sua bela fotografia e encenações, um conjunto harmônico que faz aflorar toda a competência da diretora que estreia com chave de ouro.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Val Barros
Co-produção: Valdenira Barros Zen Comunicação Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais

DOCTV: De Barra a Barra


Por: João Daniel Donadeli
Desde a chegada das estradas e do transporte rodoviário, a canoa de tolda, símbolo das águas do baixo São Francisco que compunha a paisagem do rio, esteve extinta. Herança dos holandeses, no passado navegava pelo Velho Chico transportando cargas e passageiros e compondo o imaginário daqueles que à viam da margem.
Com a iniciativa da ONG “Canoa de tolda”, uma das poucas canoas que resistiu ao tempo, passou por um longo processo de reforma antes de voltar a navegar. Denominada Luzitânia, a canoa centenária refez o trajeto de Barra a Barra que foi registrado no documentário dirigido por Carlos Eduardo Ribeiro, um dos idealizadores da ONG e principal responsável pelo projeto de reforma da canoa de tolda.
De Barra a Barra era a expressão usada pelos canoeiros para se referirem a longa viagem entre as cidades de Barra em Sergipe e Barra em Alagoas, viagem que somente os melhores canoeiros faziam.
O documentário que tem inicio com a partida da canoa em sua jornada para cumprir o trajeto entre o mar e o sertão, desponta a alegria de seus tripulantes em ver novamente um ícone do rio navegando pra “arriba” do sertão.
A paisagem exuberante novamente é composta pela canoa que da margem, pode ser vista navegando rio a cima levada pelo vento e pela emoção de seus ocupantes. No caminho novos personagens sobem a bordo e engordam as historias e a poética da viagem que é ditada pelo vento.
Histórias contadas a bordo mostram que a canoa teve seus tempos áureos quando personalidades históricas se deixavam levar pelas águas do rio São Francisco, como Lampião e seu bando que pegaram uma carona na velha Luzitânia durante suas muitas andanças.
Um incidente, durante a viagem muda o rumo das filmagens e acaba por ser a razão de encontros em terra firme com os artesãos ribeirinhos que demonstram suas práticas culturais para construírem embarcações e refazerem suas memórias.
Carlos também é personagem de seu próprio filme que na tentativa de revelar seus personagens também é revelado, sua paixão pela canoa vem a tona a medida que o documentário se desenvolve e podemos velo correndo de um lado para outro para manter a canoa navegando.
O dialogo entre os personagens carregado de um sotaque inconfundível e a simplicidade da vida ribeirinha revelam histórias cativantes e impensáveis, como a história narrada por um dos personagens que conta sua primeira vez numa sala de cinema.
A trilha sonora está tão bem alocada ao filme que é impensável dissocia-lá das imagens e do tempo fílmico que é conduzida pelo sopro do vento e pela resistência das águas.
Tanto como personagem como agente reveladora de nostalgias e emoções a canoa Luzitânia esta de volta as águas do velho Chico para além das oralidades, reavivando memórias e conduzindo antigos navegantes com idades avançadas a reviverem momentos de outrora e talvez a “derradeira” viagem.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autor e Diretor: Carlos Eduardo Ribeiro Jr.
Co-produção: Carlos Eduardo Ribeiro Jr. Canoa de Tolda TV Aperipê ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais


"De Barra a Barra" (trailer) from aperipe tv on Vimeo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Festival de Gramado - Nochebuena


Por:João Daniel Donadeli


Nochebuena é uma comédia irreverente de humor negro que não se deixa levar por gratuidades, revelando a falência das falsas aparências de uma família aristocrática, a partir da metáfora dos encanamentos dos esgotos que correm por debaixo da terra sem que ninguém saiba o que neles ocorre.

Acontece que quanto os encanamentos entopem a sujeira vem a tona. Em plena noite de natal como a diz o próprio titulo, uma farsa familiar é revelada desmascarando toda a ostentação de um família da aristocracia rural de Bogotá.

O filho caçula Bernardo um malandro e investidor da bolsa de valores vive dando seus golpes inclusive na empregada da casa, mantém um relacionamento as escondidas com sua cunhada Esmeralda e fugindo do pai da moça um poderoso político local com o qual matem negócios obscuros.

Seu irmão é um falido funcionário público que vive de bebedeiras e traz duas amigas do trabalho para festejar a noite de natal, a matriarca da família luta para ostentar a sua posição aristocrática e, no entanto está mais falida do que os próprios filhos, esperando que um casamento arranjado com uma vizinha e rica fazendeira com seu filho caçula, solucione seus problemas econômicos.

Em pouco tempo os encanamentos da mansão colonial começam a apresentar problemas e metaforicamente sugerir que também alguma sujeira virá a tona e não demora para que isso aconteça, pois antes de anoitecer o governador Uldarico aparece sem ser convidado para passar a noite de natal e reivindicar o que é seu, causando o desmoronamento das aparências e trazendo a tona toda farsa familiar.

Com esse conjunto de estereótipos reunidos, a vizinha rica e religiosa, a mãe falida e cheia de aparências, o filho malandro, a nora adultera, e mais alguns personagens que compõem a trama essa comédia tem seu ponto forte no roteiro que sugere essa metáfora de que os esgotos estão sempre no subterrâneo, mas uma hora a sujeira aparece revelando toda a hipocrisia de uma classe social que vive em um mundinho fechado de costas para a realidade.

Ficha técnica:
Nochebuena – Colômbia, 2008 – 84 min HD- ficção
Direção: Maria Camila Loboguerrero
Roteiro: Maria Camila Loboguerrero, Matias maldonado

Palavras do diretor antes da estreia:

A diretora cita Glauber Rocha com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e diz que o cineasta latino-americano tem que apontar suas lentes para o próprio continente e ainda sobre o filme diz que é apenas uma “Farsa Colombiana”que acontece nas melhores famílias.

Perfil do diretor:
Maria Camila Loboguerrero é mestre em belas artes pela universidade dos Andes, Bogotá, licenciada em historia da arte pela universidade de Sorbone e especialista em cinema antropológico e documentário também pela Sorbone. Em 1970 obteve ainda outra licenciatura em cinematografia pela universidade de Vincennes. Como diretora de cinema, se destacam seus longas “Maria Cano” e “Com su música a outra parte”, além de sete curtas e quatro documentários.

festival de Gramado - Cildo


Por:João Daniel Donadeli

Memória é o melhor lugar para uma obra de arte, memória é aquilo que a gente perde sempre que precisa dela. (Cildo Meireles)

Cildo meireles é o artista plástico brasileiro de maior destaque internacional com obras expostas nas principais galerias de arte e espaços culturais do Brasil e do mundo.
Por esse motivo já seria interessante um documentário sobre sua obra, mas além de tudo Cildo também é uma figura divertida e cativante.

Tendo a intenção de retratar a obra de Cildo por suas próprias palavras e criações o diretor paulista Gustavo Rosa, mergulha no universo inconsciente do artista e traz para a tela do cinema a tradução audiovisual d e suas obras.
Fazendo uso de imagens de um antigo filme dirigido por Wilson Coltinho em 1979 chamado “Cildo Meireles” também sobre as obras do artista, Gustavo faz um comparativo das mudanças de suas obras de ontem e de hoje.

Para ilustrar as falas do artista, mas sem cair na obviedade, o documentário mostra imagens do homem na lua para demonstrar a ideia principal do artista que é estar entre o filme e a platéia, entre a terra e a lua como esteve Michael Colins rondando em volta da lua enquanto seus companheiros pisavam em solo lunar.

As instalações do artista são mostradas com ruídos e sons disformes e desconexos, mas que muitas vezes sugerem uma possível experiência com a obra, como se o espectador estivesse vivenciando e interagindo com a instalação criando esse vinculo de participação do individuo com a obra do artista, o mesmo que espectador ativo.

Com extrema clareza e reverência Cildo em seus depoimentos percorre temas filosóficos e complexos discorrendo sobre arte conceitual, perecibilidade e descartabilidade, porém com uma simplicidade oral que mostra a intenção democrática do artista de atingir não somente a elite intelectual, mas a todos.

Ficha técnica:
Cildo- Rio de Janeiro, 2008-78min HD –Documentário
Diretor: Gustavo Rosa

Perfil do diretor:

Gustavo Rosa de Moura, Nasceu em são Paulo no anode 1975, formou-se em arquitetura na USP e mudou para o Rio de Janeiro. Realizou projetos de museografia e instalações multimídia. Em 2003 passou a atuar como freelancer realizando projetos de cenografia e multimídia. Iniciou a carreira de documentarista trabalhando independente, e no ano de 2008 uniu-se a Carlito Carvalhosa e Mari stockler para montar o Estúdio Duas Águas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

DOCTV IV - Morro do céu


Por: João Daniel Donadeli


No alto de uma montanha da Serra Gaúcha, demora-se o vilarejo Morro do Céu, uma comunidade de descendentes de italianos que foi palco para o documentário homônimo.

Morro do Céu, dirigido por Gustavo Spolidoro (de Ainda Orangotangos), contempla o universo jovem, com suas vivências, conflitos e descobertas.

Parte da proposta de observação direta do cotidiano do jovem Bruno Storti, personagem que conduz a narrativa, sem recorrer a entrevistas “posadas”, aproximando-se do que se denomina cinema direto, mas com uma particularidade ímpar.

A proximidade com Bruno resulta na revelação das inseguranças do rapaz, como o primeiro amor e o sufoco para fechar as notas do colégio no final do ano, e também na celebração da amizade e da camaradagem do rapaz e seus amigos.

O documentário se assemelha, assim, ao filme Conta Comigo, dirigido por Rob Reiner em 1986, em que um grupo de amigos de pequeno vilarejo vive os dias de verão buscando aventura nos trilhos do trem, se autodescobrindo e antecipando uma nova fase de suas vidas.

Para o espectador, o jovem Bruno serve como condicionante para o mergulho em nossas próprias experiências, em nossas memórias de adolescência, numa nostalgia encantadora. Revivemos, com Bruno, essa fase mágica e efêmera de nossas vidas, sonhando com que o boletim fosse outra vez o maior problema de nosso mundo.

A vida de um adolescente num vilarejo rural, com uma repressão social própria, em que todos são observados por todos, se descortina não só na timidez aparente, mas também na ingenuidade do jovem em sua autodescoberta e na intenção de desbravar novos caminhos, de países longínquos, como o próprio Bruno revela numa conversa com os pais.

A maneira encontrada para levar ao cinema essa proposta experimental, descompromissada com rótulos de gênero, é reveladora de uma realidade que só se obtém pela cumplicidade de todos.

Gustavo Spolidoro, o diretor, trabalhou sozinho, captando aquilo que decorria diante das lentes, numa ousadia que talvez não funcionasse com uma equipe. A opção pela intimidade inclusive técnica, sem a parafernália tipicamente cinematográfica, de tripés, refletores, gruas, trilhos etc., colocou todos em posição de igualdade.

Por isso a câmera “sumiu” e a realidade despontou.

Morro do Céu (Brasil, 52 min.)
Autor e diretor: Gustavo Spolidoro