segunda-feira, 7 de setembro de 2009

DOCTV: "Oito ou Oitenta"



"Aqueles que olham é que fazem os quadros” (Marcel Duchamp)

Toda a efervescência artística dos anos oitenta pode ser pensada a partir do grito recalcado por mais de uma década de ditadura militar, a cena artístico-musical da cidade de Belo Horizonte na década de oitenta reflete toda a vontade de expurgar essa frustração, angustia e radicalidade engasgada durante esse período obscuro.
O documentário “Oito ou Oitenta” co-dirigido por Lucas Bambozzi e Rodrigo Minelli, busca resgatar e rememorar o que foi essa efervescência artística pós-punk, a partir de um encontro informal com os artistas transformadores daquela realidade pós-ditadura.
Esses agentes, artistas plásticos, músicos e performáticos, buscavam inspiração futurista, dadaísta e anárquica para passar a sua mensagem com o intuito de transformar transgredindo o Status Quo.
A anti-arte herdada em partes de Duchamp, que rompendo toda e qualquer possibilidade estética, mandou um mictório para ser avaliado como obra de arte, influenciou o movimento pós-punk dos anos oitenta que buscava uma arte original desprovida de predefinições, e academicismo, corroborando com o ideário “faça você mesmo” demonstrando a despretensão e que “tanto o sucesso como o fracasso eram coisas abstratas” (fala de uma das personagens).
O documentário segue essa estética transgressora com uma sucessão de imagens fotográficas, vídeos antigos dos shows, ruídos, elementos gráficos típicos dos anos oitenta e movimentos de câmera que rompem com os modelos predefinidos.
Em alguns momentos do filme os personagens assistem imagens da época e fazem comentários de si próprios, como a artista plástica que se diz um embrião de Ana Maria Braga por ensinar em um programa de TV a pintar assento para vasos sanitários.
Negar o “sucesso” e todas as formas de ascensão midiáticas é típico de todo movimento underground e é também um dos pontos que intrigam o espectador ao paradoxalmente ouvir ao longo do documentário, as personagens negarem o sistema, mas que ao final ao serem questionados sobre o motivo do fim do movimento, falam como teria sido suas carreiras, dizem que teriam mais espaço caso estivessem em São Paulo, Rio ou Europa.
Oito ou Oitenta é um filme que revela a veia artística de belo Horizonte nos anos oitenta e traduz toda a estranheza e excesividade dessa época sem meias palavras, em síntese, é um filme complexo e propositalmente incoerente que preenche uma lacuna deixada pelo “anonimato” desse movimento.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autor: Rodrigo Minelli
Diretores: Rodrigo Minelli e Lucas Bambozzi
Co-produção: Rodrigo Minelli Arquipélago Audiovisual REDE MINAS ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ciclo folha de Cinema e Jornalismo

A partir da próxima terça-feira, dia 1º de setembro, a Folha de S.Paulo e o Espaço Unibanco de Cinema dão início ao Ciclo Folha Cinema e Jornalismo, que celebra os 20 anos da função de ombudsman do jornal Folha de S.Paulo.

Com exibição do longa-metragem Cidadão Kane, de Orson Welles, a abertura do Ciclo será seguida de debate com Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman do jornal Folha de S.Paulo e Sergio Rizzo, crítico de cinema.

O tema jornalismo está presente em todos os filmes da programação, que tem sessões sempre às terças-feiras, às 19h30, na sala 3 do Espaço Unibanco de Cinema, com entrada Catraca Livre.

Abaixo segue a programação completa do ciclo
Ciclo Folha Cinema e Jornalismo
De 01 de setembro a 31 de novembro
Entrada Franca - Sempre às 19h30
Espaço Unibanco de Cinema – Sala 3 – Rua Augusta, 1475 – Cerqueira César

Dia 01/09 (Terça-feira)
19h30 – CIDADÃO KANE (Citizen Kane) – 35mm
Diretor: Orson Welles – EUA – 1941 – 119 min. – 12 anos
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten e Dorothy Comingore
Sinopse: Baseado na vida do magnata das comunicações William Randolph Hearst, conhecemos a história de Charles Foster Kane, o homem que construiu um império a partir do nada, mas que vivia uma vida pessoal extremamente ruim. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro, é considerado um dos filmes mais importantes da história.
Após a sessão haverá debate com Carlos Eduardo Lins da Silva (ombudsman do jornal Folha de S.Paulo) e Sergio Rizzo (crítico de cinema)




Dia 08/09 (Terça-feira)
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the Hole) - VHS
Diretor: Billy Wilder – EUA – 1951 – 111 min.
Elenco: Kirk Douglas, Robert Arthur e Porter Hall
Sinopse: Charles Tatum é um repórter que aceita um emprego num pequeno jornal do Novo México. O trabalho é bastante monótono, até que ele encontra um homem preso numa mina. Ele vislumbra a possibilidade de, ao prolongar a permanência do mineiro dentro dos escombros, a chance de se tornar famoso.



Dia 15/09 (Terça-feira)
A DOCE VIDA (LA Dolce Vita) – 35mm
Diretor: Federico Fellini – Itália/França – 1960 – 174 min.
Elenco: Marcelo Mastroianni e Anita Ekberg
Sinopse: A cultura italiana vista através da figura de um jornalista, amante inveterado, que se depara com a histeria do povo, resultado da possível ocorrência de um milagre. Palma de Ouro no Festival de Cannes.





Dia 22/09 (Terça-feira)
TERRA EM TRANSE – 35mm
Diretor: Glauber Rocha – Brasil – 1967 – 106 min.
Elenco: Jardel Filho, José Lewgoy e Paulo Autran
Sinopse: Eldorado, país fictício da américa latina, é um cenário de metáforas de um Brasil de corruptos que lutam pelo poder. A história é visto por um cínico jornalista, perdido entre a elite insana e o povo ignorante.



Dia 29/09 (Terça-feira)
PASSAGEIRO: PROFISSÃO REPÓRTER (Profissione: Reporter) – 35mm
Diretor: Michelangelo Antonioni – Itália/França/EUA/Espanha -1975 – 126 min.
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider e Ian Hendry
Sinopse: Cansado da sua própria vida, o jornalista David Locke está cobrindo uma guerrilha na África e resolve assumir a identidade de um colega, quando este morre, envolvendo-se em uma perigosa trama.



Dia 06/10 (Terça-feira)
AUSÊNCIA DE MALÍCIA (Absence of Malice) - DVD
Diretor: Sydney Pollack – EUA – 1981 – 116 min.
Elenco: Paul Newman, Sally Field e Bob Balaban
Sinopse: Homem acorda e vê em matéria de jornal sua vida investigada profundamente. Todas as provas levam a ele. Junto da repórter, eles investigam o caso e o mistério atrás do fato.



Dia 13/10 (Terça-feira)
SALVADOR – O MARTÍRIO DE UM POVO (Salvador) - DVD
Diretor: Oliver Stone – EUA – 1986 – 123 min.
Elenco: James Woods, James Belushi e John Savage
Sinopse: No cenário da guerra civil de El Salvador, jornalista fracassado tenta recuperar seu prestígio fazendo uma cobertura apurada. Ele documenta então as várias tragédias da guerra: a morte de um repórter fotográfico, o assassinato de religiosos e a invasão de cidades. O filme recebeu indicações para os Oscars de melhor roteiro e ator.



Dia 20/10 (Terça-feira)
NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA (Broadcast News) - DVD
Diretor: James L. Brooks – EUA – 1987 – 133 min.
Elenco: William Hurt, Albert Brooks e Holly Hunter
Sinopse: O dia-a-dia de uma redação de jornalismo numa emissora de televisão. Entre a correria de colocar no ar todas as manchetes do dia, desenvolve-se uma trama que envolve romance, vaidade e disputas.



Dia 10/11 (Terça-feira)
FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog Day) - DVD
Diretor: Harold Ramis – EUA – 1993 – 101 min.
Elenco: Bill Murray, Andie MacDowell e Chris Elliot
Sinopse: Jornalista vai com equipe para pequena cidade cobrir tradição local chamada ”dia da marmota”. Ele passa a acordar sempre neste mesmo dia, o que gera alegrias e desesperos.


Dia 17/11 (Terça-feira)
O CUSTO DA CORAGEM (Veronica Guerin) - DVD
Diretor: Joel Schumacher – EUA/Irlanda/Inglaterra – 2003 – 98 min.
Elenco: Cate Blanchet, Gerard McSorley e Barry Barnes
Sinopse: Cinebiografia da jornalista irlandesa que foi ameaçada por expor as ligações do tráfico de drogas com o governo de seu país


Dia 24/11 (Terça-feira)
O PREÇO DE UMA VERDADE (Shattered Glass) - DVD
Diretor: Billy Ray – EUA – 2003 – 103 min.
Elenco: Hayden Christensen, Chlöe Sevigny e Rosario Dawson
Sinopse: Stephen Glass é um jornalista que consegue entrar para a equipe principal do jornal The New Republic, de Washington. Entretanto, dos anos em que trabalha na redação, mais da metade dos textos de sua autoria ou foram inventados ou copiados, o que não impede seu crescimento. Porém sua fama vai por água abaixo após sua farsa ser descoberta.


Dia 31/11 (Terça-feira)
BOA NOITE, BOA SORTE (Good Night, and Good Luck) – 35mm
Diretor: George Clooney – EUA – 2005 – 93 min.
Elenco: George Clooney, David Strathairn e Robert Downey Jr.
Sinopse: Edward R. Morrow é um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para tanto ele revela as táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy em sua caça aos supostos comunistas. O senador, por sua vez, prefere intimidar Morrow ao invés de usar o direito de resposta por ele oferecido em seu jornal, iniciando um grande confronto público que trará conseqüências à recém-implantada TV nos Estados Unidos.

OBS: HAVERÁ UMA INTERRUPÇÃO NO MÊS DE OUT/NOV DEVIDO A MOSTRA INTERNACIONAL DE SÃO PAULO.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

DOCTV: Álbum de Família


Por: João Daniel Donadeli
Álbum de família é um documentário que visa resgatar os laços perdidos pela desestrutura familiar causada pela infidelidade e falta de compromisso da figura paternalista que “regia” a família do diretor.
Após a morte traumática de sua mãe por um câncer de mama contraído depois de uma separação frustrante, que teve inicio com as constantes traições do marido que simultaneamente convivia com três famílias, o diretor Wallace Nogueira, busca um reencontro com o pai, para reaver metaforicamente o álbum de família deixado em uma antiga fazenda onde a família costumava se reunir.
Esse encontro se dá na empreitada de uma viagem longínqua pelas estradas da chapada diamantina no interior da Bahia em direção a Fazenda, estrada que refaz as memórias de outrora e que liga Wallace a seu pai, um trajeto que visa não só a troca de experiências, sentimentos e memórias de convívio, mas também confidências que fazem aflorar um sentimento de culpa.
Um momento muito marcante desse documentário são as imagens captadas por Wallace no enterro de sua mãe, essas imagens são potencializadas pelo questionamento do pai pelo filho em off, onde se ouve o pai dizer que o câncer foi contraído pelo desgosto da mãe por sua má conduta e pela separação.
A proposta utilizada pelo diretor para revelar essa reaproximação com seu pai, são planos montados e encenados pelos dois sem que nenhum fale diretamente para a câmera ou para qualquer outro interlocutor, como se o espectador fosse um observador privilegiado desse diálogo cheio de emoção e revelações.
A partir de situações corriqueiras da vida de seu pai, como deixar de comprar um queijo para levar um filme fotográfico, Wallace busca demonstrar a importância que tem para a família, o registro fotográfico de um álbum familiar, porém contraditoriamente expõe a sua opinião com relação ao modelo familiar vigente que diz não acreditar.
Com o pretexto de reaver o álbum de família na verdade Wallace busca uma resposta para sua inquietude, desvelando sua intenção de suscitar a catarse e purgar toda a frustração que a morte de sua mãe lhe causou.
Por fim Álbum de família é um documentário que demonstra a ruína de uma família quando os interesses pessoais estão além dos interesses coletivos.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autor e Diretor: Wallace Nogueira
Co-produção: Wallace Nogueira Santos Silva Vogal Imagem IRDEB - TVE Bahia ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais

DOCTV: O Rei do Carimã

Por: João Daniel Donadeli

O documentário “O Rei do Carimã” busca resgatar um acontecimento obscurecido por anos pela família da diretora Tata Amaral e que no dia do enterro de sua mãe vem à tona por um comentário de um de seus tios, esse acontecimento diz respeito ao já falecido pai da diretora, que na década de 1950 negociava resíduos de algodão conhecido como Carimã.

O comentário feito pelo tio revelava que no passado seu pai havia sido um homem bem sucedido e que por um negócio mal sucedido com uma empresa americana na aquisição de uma grande quantidade de Carimã teria sido processado por ter feito o pagamento com um cheque sem fundos e fugido para o mato grosso para não ser preso.

Esse fato motiva a diretora a empreitar uma busca para desvendar esse segredo guardado por anos por sua família e consequentemente a realização desse documentário.

Em conversas informais com seus tios, o segredo vai sendo desvendado e causando uma inquietação maior na diretora, em um primeiro momento somos apresentados a Joaquim Amaral (Pai) um jovem bem quisto e admirado pela família e que aspirava sua predileção empreendedora, mas logo após tomamos conhecimento de novos fatos e o documentário tem um novo foco, não mais um segredo de família e sim um inquérito policial.

Alternadamente, enquanto as imagens revelam a busca de um pai desconhecido, na ilha de edição Jean Claude Bernardet, põem a diretora no divã questionando-a quanto a sua motivação em fazer o documentário colocando assim o filme num plano metalingüístico e expondo a sua construção.

O Rei do Carimã expõe intensamente a diretora que torna público um segredo escondido por anos em família, mas a maior exposição de Tata é quando recebe a noticia da condenação de seu pai por estelionato, sua lagrimas correm pelo rosto enquanto uma voz off, possivelmente de sua filha diz: “não acho que isso deva aparecer no documentário”.
Com o processo resgatado em mãos sabemos que seu pai havia de varias formas tentado fazer o acerto de contas, porém a inflexibilidade da empresa americana impossibilitava qualquer negociação levando o processo até as últimas.

O mais intrigante nesse documentário não é a questão de uma diretora renomada expor sua intimidade familiar em um documentário mesmo que fosse para limpar publicamente o nome de seu pai, e sim a questão que surge sobre a convivência da filha com o pai que não lembra nem mesmo se teria participado de seu enterro, e até a realização desse documentário não havia nem mesmo visitado sua sepultura, aparentemente a maior motivação para a realização desse filme é a aproximação da filha com o pai que não conheceu.

Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Tata Amaral
Co-produção: Tata Amaral Tangerina Entretenimento Fundação Padre Anchieta – TV Cultura


DOCTV: O Sol Sangra


Por: João Daniel Donadeli
A Estrada de ferro Carajás, que interliga as cidades de Parauapeba-PA a São Luís-MA é sem dúvida um agente causador de reminiscências. Homens que vão em busca de sonhos e Homens que voltam para matar a saudade, um conglomerado de sentimentos que transcendem o plano real e trafegam entre o espaço e o tempo, pelo sim e pelo não.
Toda a ansiedade e nervosismo que antecedem uma viagem se dissolve à medida que partimos e não mais somos detentores do tempo, dali pra frente estamos sujeitos a outra temporalidade a outra maneira de perceber o tempo o que nos faz regressar e consultar nossas memórias, mas também visitar a louca da casa e nos deixar levar pela imaginação. Imaginação que nos conduzem a nossa subjetividade na construção de um universo imagético e atemporal.
Essa é a proposta do documentário “O sol Sangra” de Val Barros, que busca por meio da metáfora do trem mostrar as subjetividades e memórias não só daqueles que trafegam na Estrada de ferro Carajás como suas próprias memórias.
O sol sangra é construído com imagens do trem em movimento sempre do ponto de vista de quem viaja, ou seja, a paisagem em movimento. Essas imagens são alternadas com imagens encenadas por pessoas simples e com muita naturalidade sugerindo suas próprias memórias.
Com toda a sutileza e ponderação Val, também é um personagem de seu próprio filme apresentando suas memórias e refletindo sua imagem nas passagens do trem, uma das cenas mais lindas do filme é a do garoto que observa seu pai partir à cavalo e voltar para buscá-lo, lembrança de infância da diretora.
Planos com movimentos lentos e detalhados dirigem o olhar do espectador e geram expectativas conduzindo a narrativa de maneira ativa fazendo com que os cinqüenta e dois minutos do filme pareçam quinze.
O mais surpreendente nesse filme são as fotos que choram, fotos que revelam Val, e seus irmãos diante de um pequenino caixão com o irmão falecido, essas cenas são de uma genialidade que somente uma mulher com toda a sua sensibilidade estética poderia nos proporcionar, a continuidade desse plano são crianças no trem além de uma mãe alimentando seu filho como se aquela imagem fúnebre e triste desse lugar a um renascimento com a mãe amamentando uma nova vida.
O sol sangra é um documentário silencioso e contemplativo onde os únicos ruídos que se ouve são aqueles que pertencem a própria cena sem trilha sonora ou depoimentos em of, mas no entanto é um filme que fala muito e que encanta por sua bela fotografia e encenações, um conjunto harmônico que faz aflorar toda a competência da diretora que estreia com chave de ouro.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autora e Diretora: Val Barros
Co-produção: Valdenira Barros Zen Comunicação Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais

DOCTV: De Barra a Barra


Por: João Daniel Donadeli
Desde a chegada das estradas e do transporte rodoviário, a canoa de tolda, símbolo das águas do baixo São Francisco que compunha a paisagem do rio, esteve extinta. Herança dos holandeses, no passado navegava pelo Velho Chico transportando cargas e passageiros e compondo o imaginário daqueles que à viam da margem.
Com a iniciativa da ONG “Canoa de tolda”, uma das poucas canoas que resistiu ao tempo, passou por um longo processo de reforma antes de voltar a navegar. Denominada Luzitânia, a canoa centenária refez o trajeto de Barra a Barra que foi registrado no documentário dirigido por Carlos Eduardo Ribeiro, um dos idealizadores da ONG e principal responsável pelo projeto de reforma da canoa de tolda.
De Barra a Barra era a expressão usada pelos canoeiros para se referirem a longa viagem entre as cidades de Barra em Sergipe e Barra em Alagoas, viagem que somente os melhores canoeiros faziam.
O documentário que tem inicio com a partida da canoa em sua jornada para cumprir o trajeto entre o mar e o sertão, desponta a alegria de seus tripulantes em ver novamente um ícone do rio navegando pra “arriba” do sertão.
A paisagem exuberante novamente é composta pela canoa que da margem, pode ser vista navegando rio a cima levada pelo vento e pela emoção de seus ocupantes. No caminho novos personagens sobem a bordo e engordam as historias e a poética da viagem que é ditada pelo vento.
Histórias contadas a bordo mostram que a canoa teve seus tempos áureos quando personalidades históricas se deixavam levar pelas águas do rio São Francisco, como Lampião e seu bando que pegaram uma carona na velha Luzitânia durante suas muitas andanças.
Um incidente, durante a viagem muda o rumo das filmagens e acaba por ser a razão de encontros em terra firme com os artesãos ribeirinhos que demonstram suas práticas culturais para construírem embarcações e refazerem suas memórias.
Carlos também é personagem de seu próprio filme que na tentativa de revelar seus personagens também é revelado, sua paixão pela canoa vem a tona a medida que o documentário se desenvolve e podemos velo correndo de um lado para outro para manter a canoa navegando.
O dialogo entre os personagens carregado de um sotaque inconfundível e a simplicidade da vida ribeirinha revelam histórias cativantes e impensáveis, como a história narrada por um dos personagens que conta sua primeira vez numa sala de cinema.
A trilha sonora está tão bem alocada ao filme que é impensável dissocia-lá das imagens e do tempo fílmico que é conduzida pelo sopro do vento e pela resistência das águas.
Tanto como personagem como agente reveladora de nostalgias e emoções a canoa Luzitânia esta de volta as águas do velho Chico para além das oralidades, reavivando memórias e conduzindo antigos navegantes com idades avançadas a reviverem momentos de outrora e talvez a “derradeira” viagem.
Ficha Técnica
Duração: 52 minutos
Autor e Diretor: Carlos Eduardo Ribeiro Jr.
Co-produção: Carlos Eduardo Ribeiro Jr. Canoa de Tolda TV Aperipê ABEPEC - Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais


"De Barra a Barra" (trailer) from aperipe tv on Vimeo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

FICCO - 2009


Estão abertas até o dia 30 de outubro as inscrições para o 7º Festival Internacional de Cine Contemporáneo de la Ciudad de México (Ficco). O evento acontece na capital mexicana de 24 de fevereiro a 7 de março de 2010. Serão aceitas as inscrições de longas-metragens de ficção e documentários que tenham sido realizados em 2009 e ainda não tenham sido exibidos no México. Mais informações e inscrições no site: www.ficco.com.mx.
Fonte: tela viva